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não há chegada enquanto eu não te beijo






não é apenas o fato de que eu venha, assim, envenenada do caótico, da rotina, a pressa, as cobranças no trabalho, a constante necessidade de competência, de lucidez – ou ainda o cansaço de enxergar esses fios intricados me sabendo incapaz de desembaralhar porque não são minhas essas questões de amor familiar desencontrado

mas é toda uma relação com o tempo, porque longe, toda a vida se organiza em função de viver bem o diário, os amigos, a cidade, sem contagem regressiva. No entanto, ela existe, dissimulada, ocasional, distraída apenas por ritmos que mal me deixam acompanhar belezas como as espirradeiras colorindo as calçadas da minha rua

preciso de uns instantes antes, não só pra me despir dessas tralhas, mas também pra me acertar com o tempo. Porque beijar você reverte o fluxo de querer que chegar, para saber estar, sem desperdícios e ansiedades.

sentir o teu cheiro, a tua barba no meu rosto, a tua voz, ajustar o corpo ao teu abraço pra desarmar a dinâmica do desejo e da saudade – calar essa ausência e perceber se desmanchar em mim o tanto que você me falta, porque finalmente estamos aqui. Aceitar que não é preciso mais querer que passe, nem adianta tentar resistir ao inevitável, ter, enfim, esses dias todos nossos


imagem de wil freeborn


das palavras, a imprecisão



há dias com essa conversa
e Chico Buarque na cabeça



_ e vocês tão bem?

_ sim, tamos.

_ sabe, ainda não me costumei com a ideia de você estar namorando. Sei lá, estou feliz por você, mas parece meio esquisito.

_ hahaha, sei como é. Eu mesma ainda não me acostumei direito. Nem é pela relação, o estar junto, porque isso tô adorando, mas acho estranho me referir a ele como 'meu namorado'.

_ deve ser falta de costume de ter um namorado pra chamar de seu.

_ talvez seja um pouco disso também. A verdade é que me parece um eufemismo meio besta

_ por quê?

_ por que quando penso nele ou a gente se encontra ou me pego espiando ele, nunca me vem a cabeça 'é o meu namorado'

_ ah é? e o que você pensa então?

_ eu sinto: esse é o meu homem

um romance infanto-juvenil (ou quase)






saí de lá, deixando ele pra trás sem pensar, sem querer, ouvindo a constatação do óbvio na cabeça – tô fodida. Fo-di-da – acendi um cigarro, ótimo pra compor o kit básico do cinismo

mas ao final da tragada, nem o arrepio da nicotina segura a onda de ternura – e se for um sinal? – deus, eu já queria encontrar significados ocultos em coincidências. O livro sobre a bancada, a história das cartas do baralho, a tatuagem, o tarô, a coleção. Nada daquilo estava relacionado, mas eu começava a tecer as [entre]linhas e referências, compondo um acaso. Ou não.

parei num café, mais um cigarro. Iria embora no dia seguinte. Sem fotografias, perspectivas de voltar – porra, estava com medo de quê? – mas sabia, sem sequer articular em palavras o pensamento que aquele livro seria um bumerangue, apontar o dedo com outros três virados pra mim, um quase feitiço. Se ele lesse e encontrasse mensagem cifrada disfarçada engarrafada na história.

era possível que ele não lesse, lesse e não gostasse. Restaria o livro esfíngico na estante, o coringa na capa rindo do meu tiro pela culatra, a desimportância dada ao que poderia ser uma gentileza ou um convite pra vertigem. Era bobo, mas poético. E tinha acabado de aprender a respeitar o ridículo do meu romantismo que não ousa dizer o próprio nome. Enfim, eu estava fodida. Só faltava mesmo abraçar o capeta. Opa, não. Quem faz isso é Madalena.

na pior das hipóteses, teríamos boas recordações, um livro não-lido e 400km de distância. Eu jamais saberia (se houvesse) consequências da minha tentativa de delicadeza.

só isso, simples. Terminei o café, flanei um pouco mais pela avenida, tanto pra ver, mas de certa forma algo atrás dos meus olhos continuava lá. Voltei. Ele me esperava no mesmo lugar ao lado da literatura estrangeira

entre a corrida de dedo entre as páginas pra subir o cheiro do papel – cometer ou não, dedicatória? – a patada extrema de ternura, a evidência de que havia algo mais, que eu não queria simplificar, circunscrever ou tentar definir antes da hora.

A sensação era de que tudo era possível, por mais que soubesse que não. O que houvesse, teria limite, mas antes era preciso o big bang e a expansão. Ou melhor, desaceleração da expansão porque o processo havia começado, afinal, estava eu, parada em frente ao balcão de embrulhos pra presentes, o que jamais arriscaria antes de um começo

estava dentro, sem saber se estava só ou se ele também tinha embarcado. Mas ainda não queria saber do quê. Podia acabar amanhã. Podia 489 coisas, mas ora, só tinha um jeito de saber

e tinha chegado a hora de parar de fugir descaradamente de qualquer coisa que ameaçasse me tirar do meu centro e do meu dentro também.

***

o livro passou o resto do dia incômodo na minha bolsa. Assim que ficamos a sós, antes de começarmos a que seria (ou não) ‘a última noite’ disparei
_ é pra você
_ obrigado!
_ cê não vai abrir? ah, melhor! adivinha qual é?
_ é um Thompson?
_ nããão
_ não é um Bukowski.
_ também não, esses são óbvios. É um livro que só eu poderia te dar
_ é o dia do coringa?
_ ééé, abre

e lá estava o sorriso esperado, o beijo e veio então a fatídica pergunta

_ e a dedicatória?
_ ah, não escrevi – tava esperando pra ver se você ia gostar.
_ adorei. E quero dedicatória.


acabei às três da manhã sentada na cama olhando o livro com meia dúzia de trocadilhos indecentes latejando na cabeça, pra disfarçar o tom. a Doçura, putaquepariu. Inegável, inescapável e eu não estava acostumada a deixar fluir sem inventar um caminho inviesado

despejei metáforas, um pouco de graça sobre o subtexto – estou fodida, coringa – você é inesperado, subitamente querido, estou indo embora, mas não quero que você vá, desista, se desinteresse e como isso não se pede, como um beijo ou qualquer espécie de afeto, esse presente é uma insinuação, um convite, uma charada

enfeitada de condicionais, mas trazendo a constatação: instaurou-se o caos, desfez-se a velha ordem, embaralharam-se as jogadas. E, agora, quem vai pagar pra ver?

***

enquanto ele lia foram os minutos mais longos do final de semana. Mentira. Os na rodoviária demoram mais, mas perderam o peso. A questão era a exposição sutil, a minha letra despida, o presente, o texto, as supostas últimas horas. Eu estava absurdamente vulnerável, segurando a covardia – vamos lá, garota, você não tem nada a perder, se encontrou faz pouco tempo.

e ele corou, riu, disse que adorou e como não tinha motivos pra mentir, nem eu pra duvidar, acreditei.

***

da última vez que nos vimos, o livro estava na cabeceira, estacionado e intercalado com uns outros dois – ele também lê dois, três ao mesmo tempo. Fiz draminha porque ele não terminou, são mais pela mensagem engarrafada que era um capricho poético, uma vaidade deliciosamente desimportante. Adorava o livro, a história, a estrutura da narrativa, o desfecho – o bumerangue me atingiu antes de ser lançado, e tinha voltado, de qualquer maneira, enfim

estava dentro e ele também, eu nem me sentia mais tão fodida.


--

a imagem foi pega emprestado em
beauty in everything.


de canções para todo sentimento




as possibilidades de felicidade
são egoístas, meu amor
viver a liberdade,
amar, de verdade
só se for a dois (só a dois)

Cazuza



não direi Amor da Minha Vida [daqui até a eternidade] por mais que mentiras sinceras me interessem. Prefiro o realismo de todo amor que houver nesta vida. Na incerteza de uma existência outra, eu quero muito, tudo e agora – e amanhã, e depois...

quero um amor tranqüilo, de se embolar e dormir encaixado na rede, mas não se faça de desentendido. Essa fruta mordida só pode ser pecado. É claro, depois de um tempo os nossos sabores serão velhos conhecidos – o que nos dá a intimidade doce de saber o outro, mas é preciso estar atento, coração, e não deixar se instalar entre nós a acomodação do todo dia

porque não é só no nosso convívio que inventei de ser artista. Terás paciência? os traços biográficos da prosa, referências às nossas conversas e o tempo de escrever. E mais trechos de romance, correspondência, fotos, canções e filmes. Rastros de transbordamento e descompasso. A sensibilidade que vida prática não valoriza enfeita a casa.

pra exorcizar o tédio, procuro sempre uma novidade. Mesmo as de museu que nos lembram que O Tempo Não Pára. Na dança por um trocado pra dar garantia, aumenta o som, meu bem, que o poeta está vivo, e me ensinou a transformar o ordinário em melodia.

E como felicidade não é reta, constante e indolor, serás também meu caos. Sem lições ou promessas curtas, tu vais apontar minhas falhas, me ensinar e exigir perdão e paciência – de me doer desejo prazer saudade e uns desencontros de vontade – serás meu ponto fraco, por que não? Há de me mostrar, ainda sem querer, meus vazios e a mulher que ainda não sou. Na fonte, escondida.

Paira no silêncio a poesia que a gente não vive, e te roubos beijos repentinos, como quem não quer nada. Faço graça (e cara de fácil), encho a tua bola, aposto no nosso futuro duvidoso, contrario segredos e te mostro quem sou. Me dedico a aprender a destilar qualquer veneno anti-monotonia, sintetizar um remédio que dê alegria, meu bem, de dar de presente, sempre, o meu bis. Para te amar aos poucos, sem pressa, e fazer um dia de cada vez, nascer feliz.


esse texto foi escrito há tempos,
mas podia ter sido outro dia


das urgências



– então, você quer transar? – apenas ri da pura retórica enquanto ele fechava a porta atrás de um beijo.

era delicioso enfim, ouvir finalmente uma menção ao que aconteceria, há muito anunciado entre insinuações e gentilezas, qualquer espécie de eufemismo disfarçando o desejo latejante curioso que nos levaria, enfim ao inevitável

– e tomar um banho, porque se fosse só pra beber e conversar, teríamos ido pra um bar, né – eu sustentava uma risada sacana já me livrando dos sapatos

– ah, mas esse é um dos motivos se pra gostar de motel, a gente pode fazer um monte de coisas num – pousou as mãos nos meus quadris e me empurrou sobre a cama – coisas, aliás, que quis fazer com você desde a primeira vez que te vi – divagava escorrendo a mão coxacima-saiabaixo me encarando

– da primeira vez? – entre a lisonja e o espanto, disparei.

– e ali você não soube?

– huuuum, não sei.tive a impressão de que podia rolar, mas não foi uma certeza, óbvia assim de cara, a ponto de dizer que eu sabia

– mas pra rolar, você teria que querer – acompanhava atento a descida da calcinha em suas mãos roçando as pontas dos dedos em minhas coxas como se toda sua perícia fosse necessária a me despir

– claro. é que eu não saquei que queria de primeira, mas sei lá, senti que podia querer

– e aí, quando soube o que queria, deixou logo claro, né

– ééé, eu sou assim, quem me conhece diz que um dos meus defeitos é não ter paciência pra fazer nenhuma espécie de cu doce

– que bom – ele sorria enquanto abria a pinça polegarindicador deixando cair a pequena peça de lingerie preta sobre os lençóis